Aí você sai da sua aula às 10h55m. Vai pro ponto do Centro de Ciências Humanas e espera pelo seu ônibus. Natural. Passa uma linha e algumas pessoas entram, outra linha, mais pessoas indo embora, outra linha e você é a única pessoa no ponto de ônibus. Frio absurdo. Você ali, completamente exposta. Morrendo de medo, óbvio. Espera. Espera. Espera. Espera espera espera. Nada.
Sem celular ou noção do tempo, você decide que o melhor é ir até um telefone público, que fica do outro lado da Universidade. Vai, com 18 anos nas costas, ligar pra sua mãe pedindo arrego, chorando de medo depois de mais de uma hora de espera um tanto aflita. UEL deserta, cenário perfeito de um thriller ou um crime. A imaginação vai longe, qualquer ventinho ou sombra se parece muito com um cidadão mal intencionado ou algo assim.
Sua mãe – mãe é sempre mãe – manda-te um táxi e você descobre que já passa (e muito) da meia-noite. Da dor de cabeça que te matou o dia inteiro você volta a se lembrar só agora, que a tranquilidade voltou um pouco. Você vai voltando pro ponto, o telefone público que você usou ficava perto da Capela, e se você é a única pessoa na UEL, vindo dessa direção, o segurança conclui que você só pode ser mal-elemento e que isso dá a ele todo direito de te abordar grosseiramente e como se você fosse criminosa. “Que que você tá fazendo aqui? Onde cê tava?” Note que, mesmo ficando uma hora inteira absolutamente sozinha no ponto de ônibus, esse é o único momento em que uma figura de segurança aparece. E eu não me sinto nada segura.
O táxi que a mãe mandou chegou, bem rápido. As saídas da universidade estavam fechadas e seja na guarita do CCB ou do Hospital das clínicas não havia um único segurança pra abrir a cancela. O taxista foi na ilegalidade, atravessou o canteiro e, sinceramente, eu não achei ruim. Fosse pra única cancela com guarda, a do CCH (por onde tinha entrado) a minha corrida que já estava em bandeira 2 ficaria ainda mais cara. O taxista me tranquiliza um pouco, me chamando até pelo nome, pergunta se meus pais não dirigem, se eu não podia ter pego uma carona. Eu explico que não era a primeira vez que saía um pouco mais tarde da aula e que, pensando bem, burocraticamente as aulas acabam às 10:50. Quer dizer, é absurdo que não haja mais nenhum ônibus da minha linha na Universidade depois das onze.
“Que curso você faz?”
“Jornalismo”
“Então no primeiro emprego que você tiver, reclama disso aí”
“Pois é…”
“Se bem que, todo mundo sabe desses problemas né? Empresa demitindo gente, cobrando sempre mais caro, e o serviço desse jeito aí”
“nem me fala…”
“Sabe que eu mesmo não reclamo não, né… É isso que me dá lucro, Isabela.” – O taxista ri, acho eu, ironicamente.
Ainda ganhei 80 centavos de desconto, gastando, pra voltar pra casa, vinte e cinco vezes o que gastaria caso houvesse um único ônibus depois das onze horas. Por curiosidade – e por já ter utilizado essa linha muitas vezes na vida – fui ao site da TCGL conferir os horários de ônibus. Eu não podia ter me confundido tanto assim. E não me confundi mesmo. Tava lá. 23:30 o ônibus devia ter passado na UEL e me trazido pra casa por um real e dez centavos (sou estudante, pago meia).
Acho que todo mundo já entendeu que isso simplesmente não aconteceu. O motivo? Em uma hora e meia de espera eu até procurei. Mas também não encontrei. Não obtive resposta por telefone. Nem educação. O que eu podia fazer, não é? A mocinha da reclamação me orientou, quase rindo da minha cara, a sair mais cedo da aula “Se você já sabe que isso sempre acontece”. É até ridículo. Mas, sinceramente? É exatamente o que eu vou fazer daqui por diante.






